Arquitetura do Tempo

Paola Fabres e Talitha Motter

 

Se o tempo atravessa a todos nós – de forma silenciosa, porém inevitável – não há como negar que ele deixa seus vestígios. Ele se faz presente no pó que decantou, na pedra sedimentada, nos pelos crescidos e embranquecidos, no templo que virou ruína. Podemos pensar que essas ações estão carregadas da certeza do envelhecimento e da efemeridade, mas, na verdade, elas revelam o poder que o tempo possui de reconfiguração.

A partir da observação da ação do tempo sobre as coisas, a artista Mariana Oliveira suspende a metamorfose incessante de objetos, lugares e construções, fazendo-os flutuar na superfície de papéis. O momento de pausa que se coloca diante de nós, paradoxalmente, nos permite observar estratificações existentes na arquitetura do mundo. Nelas, a natureza e o homem aparecem como agentes de modificação. Percebemos o trânsito de folhas, ramos e galhos que invadem os artefatos deixados pelo homem, que nos apresentam uma convergência entre memórias do passado e o desejo de permanecer no futuro.

Assim, nos encontramos inseridos em um redemoinho de transposições, que desenha e redefine constantemente o estado da paisagem que nos envolve. Desse torvelinho, entre a ficcionalidade e o resgate do real, os trabalhos de Mariana nos apontam para uma nova consciência sobre o presente e o estado das coisas, ao mesmo tempo que nos desperta para a percepção de processos de mutação. Em seus trabalhos, mais do que registros de um tempo que se foi, vibra a potência da mudança. Antes vemos a transformação do que o desaparecimento daquilo que nos rodeia.